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Sobre Contos de Amor

Música para acompanhar:
° La Chica de Ipanema - Jarabe de Pablo


                         Avenida 06 


Após ter acordado relutante com o miado da Mia que pedia comida aos meus pés, viro meu rosto contra o travesseiro para tentar dormir mais alguns minutos, porém meu despertador toca... _"Merda, já eram 7!". _


Me sento na cama, coçando os olhos e com o cobertor enrolado em mim, rapidamente Mia e Tob vem correndo ao meu encontro, o cão pula na cama do lado oposto a gata, na tentativa de chegar ao meu colo rapidamente, porém ambos chegam ao mesmo tempo, o que faz com o que batam suas cabecinhas no outro. Com isso eu dou uma risadinha e passo a mão em ambos.


- Por que hoje não é sábado?... iria dormir com vocês o dia inteiro. *Falo enquanto minhas mãos passeavam entre os pelos das minhas companhias*


Depois de enrolar fazendo carinho nos meus animais, saio da cama e vou andando pelo kitnet, que ficava na esquina da Rua Carandá e Avenida 6. Era uma bela manhã de sol, como se o dia estivesse sorrindo para mim, avisando que faltava apenas algumas horas para meu descanso da semana. Coloco ração para ambos e vou para meu pequeno banheiro. 


Meu kitnet não era tão pequeno, era aconchegante com os móveis retrôs, uma varanda e muitas plantas. O banheiro possuía um box transparente e era totalmente branco, fazendo o espelho, toalhas e outros itens rosas se destacarem entre os azulejos. 


Entro debaixo do chuveiro quente, deixando a água escorrer do meu cabelo para os pés, deixando meus cachos dourados, molhados e grudados na minha pele café com leite. Fecho os olhos castanhos, para sentir a água quente amortecer meu corpo cansado de plantões, aulas e trabalhos. Hoje era um bom dia, além de amar sexta feira, eu não possuía aula, graças às 36 horas de plantão realizadas no dia anterior, depois de tantos banhos ainda sentia o cheiro do hospital impregnado em mim.


Porém hoje era dia de trabalho na cafeteria, ficaria lá até às 20hrs para compensar o dia anterior, ou seja, o trabalho nunca para. Com esse pensamento, termino meu banho, lavando os cabelos e escovando os dentes.


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Quando o relógio da cafeteira anuncia que já eram 08:30, desencosto do caixa e arrumo meu cabelo no boné caramelo, vejo se minha blusa modelo social estava amassada. Com tudo isso certinho, vou para a cozinha, preparar o café mais especial do dia.


- Estava até estranhando você não ter vindo preparar o café! - Diz dona Margarida, ao me ver entrar na cozinha dela. 


De segunda a sexta feira, quando o relógio marcava 08:30 da manhã, eu ia para a cozinha da cafeteria e livraria Sonhos, um dos únicos momentos do dia, em que entrava lá, pois minha função era caixa sendo poucas ocasiões como garçonete. Acessava a cozinha apenas para fazer um café duplo com o acompanhamento saboroso de uma lasca de canela, o favorito do cliente mais especial dali, que chega todos os dias exatamente às 8:50. 


Me limito a rir com as bochechas totalmente coradas quando escuto o comentário da minha doce Margarida; Como um passe de mágica o café já estava quase pronto, usei grãos moídos e torrados pelo nosso chef Osvaldo. Coloco na xícara mais bonita, que tinha feito questão de separar da remessa nova, que havia chegado no dia anterior. 


Nela havia a frase: "Todos os dias felizes, começam com boas doses de Sonhos". Uma referência ao nome do lugar onde eu adorava trabalhar. Sirvo o café e milimetricamente coloco a canela sob o pires que fazia conjunto com o fundo marrom da xícara. 


Ouço a porta do café abrir, por conta do sininho charmoso que Seu Osvaldo tinha instalado a poucos dias. O sino anunciava o dono do café que eu havia acabado de preparar. 


- Clarisse, seu amado chegou!! - Bela fala apontando o rosto pela porta caixa/recepção e cozinha, com um sorriso largo estampado na cara. Minha companheira de trabalho e melhor amiga, falava que eu vivia um romance escondido de fanfics, isso por conta da borra do café deixado por ele, onde supostamente havia revelado que eu era sua paixão ardente.


Não que eu acreditasse nas baboseiras que a apaixonada Bela dizia sobre meu pequeno interesse no jornalista charmoso, porém...eu ainda fazia o café do rapaz todos os dias, mesmo tendo outras duas pessoas na cozinha, justamente para fazer o café. E essa minha mania já estava completando um ano naquela manhã de sexta-feira. 


A voz do jornalista me faz voltar a realidade, saio da cozinha pela porta de serviços, com o pires e uma cestinha de pãezinhos acebolados na bandeja, que acabará de sair do forno de Dona Margarida.


Como sempre, estava sentado na última mesa do primeiro pavimento, onde tínhamos no lugar as cadeiras, sofás em cor vinho, com uma mesa de madeira escura que era maior do que as comuns, um ótimo acesso ao wi-fi e tomadas. Como ele passava a maior parte dos seus dias ali, costumava pensar que era onde ele gostava de trabalhar, pois tinha uma vista para a Avenida 06, para o prédio do Jornal Horizontes, (o maior jornal do estado de Minas Gerais) e por conta do excelente atendimento que nossa equipe dos Sonhos, mantinha desde que a cafeteira abriu. 


Ao meu aproximar da mesa, o rapaz me surpreende com um sorriso, branco e completamente alinhado, mesmo depois um ano servindo aquele cara, toda vez que ele sorria para o café que eu trazia, meu coração palpitava no peito, fazendo minha mão suar. 


Ele era mais alto do que eu, sua pele lembrava a canela que sempre acompanhava seus cafés, seus olhos eram como o mel fresco, que eu usava para decorar alguns pães doces, tinha os cabelos raspados em um degradê, um alargador preto na orelha esquerda e um piercing no tragus da direita, uma frase que descia do final de sua orelha e adentrava suas camisas sociais. E para completar de derreter meu coraçãozinho, hoje ele estava usando uma camisa social, na cor magenta.


- Bomm Diaa, Seja bem-vindo aos Sonhos - Falo com um sorriso estampado no rosto, enquanto colocava o pires com o café e a cestinha, ao lado de onde geralmente ele colocava seu notebook. 


- Bom Dia...hmm...essa xícara é nova, certo? - Pergunta com um sorriso de lado. 


ELE NOTOU A XÍCARA, valeu a pena guardar da Bela no armário, pois era a mais bonita da coleção, além de ter a melhor frase.


- Todos os dias felizes, começam com boas doses de Sonhos... Espero que essa xícara esteja certa, desejo que hoje seja um dia feliz, afinal - * ele dá um gole em seu café * - o meu café dos Sonhos, já me foi servido. - o final saí com ele apontando a xícara a mim e agradecendo com a cabeça.


- Sendo assim, que seu dia seja feliz Senhor! - Falo para me despedir e assim poder voltar e contar as meninas que ele tinha gostado a minha xícara! 


- Com essa visão, é impossível não ter um dia feliz, Clarisse... - Meu nome parecia um poema quando saía dos lábios carnudos do jornalista, mas eu sabia que ele estava elogiando nossa cortina de vidro e toda sua magnitude ao deixar completar o ambiente com as cores da Avenida 06 e o Horizontes.


Concordo com a cabeça e dou as costas, para voltar até a cozinha, onde via Bela e Magá, espremidas na janelinha redonda, tentando de alguma forma ver o que estava acontecendo lá fora, no primeiro pavimento.


- Contaaa, ele gostou da xícara ou eu vou poder usar ela para conquistar meu novo crush? - Bela quase grita assim que coloco minha bandeja na mesa central da grande cozinha, sendo metade rústica e a outra metade industrial. 


- O que é cru...crus...cus..Ora Bolas!! Isso que você disse aí Izabelle? - Margarida fala com as sobrancelhas enrugadas.


- CRU XXX...Magá, fala assim Crux! 


Observo Bela e Margarida tentando desvendar a pronúncia de crush, enquanto dava a volta pela cozinha, para sair novamente pela porta de acesso ao caixa. 


- Ele gostou da xícara, nada além - comento quando já estava com a porta aberta e dou de ombros. Afinal, ele elogiou novamente a vista para a Avenida do que notar meus pequenos gestos de carinho.


Com um suspiro abro a gaveta do nosso caixa antigo, o que o Seu Osvaldo gostava de chamar de máquina do tempo. Com o objetivo de conferir as vendas do dia , além de anotar os pedidos do Tadeu, ele tinha uma conta fixa no Sonhos e que todo final de mês quitava, deixando gorjeta a todos os funcionários. 

~Pandy

PS: Em breve continuação






Comentários

  1. Além do conto em sí, gostei dos detalhes minuciosos, do kit net, da cafeteria... Fácil de mais de criar as imagens na mente dessa forma e entrar na história! Agora quero saber o que vai dar nessa do jornalista e da Clarisse, no aguardo!

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